A Casa

Foto: Laura Corrêa | Grafia: Edelson Nagues |

Pela fresta da porta,
um vácuo de luz
a corromper a retina.

Por entre os desvãos,
a desmemória entra e sai,
sem jamais ter saído.

Venezianas cerradas,
no intuito de prender
o que acaso restara.

Poeira sobre os objetos:
o tempo de espera amassa
o barro na acidez da saliva.

[Palavras houvesse, riscariam
uma cicatriz no silêncio.] .

Rumores de morte
bafejam o jardim,
sobre esqueletos de cães
em disformes arquétipos.

Pássaros empalhados
nas árvores ressequidas.
Remoinhos ciscam folhas,
espalhando-as a esmo.

Um hálito de passado
vem com a brisa da tarde.

A casa, agora: um não-lugar.

Os moradores [não mais]:
reflexos distorcidos
num espelho fosco.
[Já não me reconheço neles.]

Em meio ao matagal,
o portão de ferro,
carcomido pela ferrugem,
aponta uma saída impossível.

.

Foto por Laura Corrêa

Foto por Laura Corrêa

 

Edelson Nagues tem textos selecionados para coletâneas e portais da internet. Publicou Humanos, de contos, e Águas de clausura, de poesia (vencedor do X Prêmio Literário Asabeça). Organizou a coletânea Respeitável público: histórias de circo e outras tragédias (2015). Participou da antologia Horas partidas (2016). Em 2017, publicou um poema na plaquete Tanto mar sem céu.

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