Alojamento de tortura gratuita e intensiva para adeptos da moda punk 2022

Foto: Molotov Cocktail (acervo) | Grafia: Bruno Ribeiro

Sabia que ele pegou a garrafa e arremessou sem mirar? Bateu na cara do fascista com bigode escroto e cheiro de petróleo. E petróleo tem cheiro? Não sei, mas fedeu a dinheiro. Com a crise ecônomica, tudo começou a ter cheiro. E bateu sem piedade. Pegou na vera. Depois do molotov, depois do incêndio no palanque, corpos chamuscados, depois de ver o rosto do petróleo se desfigurando em pedaços de carne frita, eu corri. Juro que não ataquei ninguém. Juro. Antes de sair o que eu fiz? Antes de sair de casa, combinei com o Lucas de colocar calça preta e regata. Combinamos de ir com a do Sex Pistols. Meu namorado foi com a do A de anarquia. Sempre combinamos nossas roupas antes de sairmos para algum protesto. Posso fumar? Sério? Nunca imaginei que poderia fumar em uma delegacia, sempre vi vocês como seres caretas, saca? Daqueles que dizem que ser cristão é a salvação. Tive um tio policial, ele se matou, eu confesso que dei risada no dia. Polícia para quem precisa de polícia, né não? Como? Ahn, voltar ao assunto. Sim, nos encontramos na praça do centro. Combinamos nossas posições. Armamos nossos planos finais. O presidente estava no palanque, falando merda, insistindo no papo que destruir o parque para construir a parada lá é melhor, pois blá, blá, blá, daí a garrafa voou, e não vou mentir, eu fugi. Vi muitos policiais, guardas, a porra toda, o negócio ficou feio. Ou seja: não fiz nada. Ele que jogou a garrafa, não fui eu. Fiquei é correndo feito doido, daí os polícias me viram, provavelmente me reconheceram por causa da roupa. Hm? Claro, pode ter sido por causa do meu moicano, piercing na cara e a tatto “odeio lei”. Qual o problema? É proibido? Mas enfim, eles chegaram na voadora, enfiando minha cara no chão. Isso não se faz. Ahn? Bem, não fui eu que joguei. Se eu ajudei a fazer? Claro que não, já disse, eu só ando com eles, nunca faço nada, eu iria fazer, mas fiquei com medo, sérinho. Matar? Como assim… Vocês são os bons moços, vocês não matam ninguém. Vocês são cristões… Né não? Um grupo? Você não é polícia não, porra? E essa roupa? A.T.G.I.M.P? Quiéisso? Ei, meu namorado, o que vocês… O que vocês tão fazendo com ele, porra. Para com isso, ei caralho, tira a mão dele; mermão, tem quatro caras arrancando a roupa dele, onde nós estámos? O Luc tá ali, porra, ei, afrouxa essa algema, mermão, isso né delegacia não? Caralho, a cabeça do Carlinhos, porra, me solta, sério. Devia ter desconfiado, fumar dentro de delegacia era demais. Desculpa, ei nunca mais vou sair de preto, nunca mais vou atacar alguém na rua, é sério, sou um bom rapaz, pergunta pros meus pais. Ei, vocês não conhecem meus pais, desgraçados, cês tão fudido. Como? Merda. Para, ei, que isso? Tira isso de mim. Cês tão tirando minha roupa, que merda é essa. Tira isso de dentro de mim, EI PORRA. Não rasga minha camisa, é minha favori.

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Molotov Cocktail Band

Foto por Molotov Cocktail (acervo)

 

Bruno Ribeiro é autor do livro de contos Arranhando Paredes (Bartlebee, 2014) e dos romances Febre de Enxofre (Penalux, 2016) e Glitter (Amazon, 2017). Mestre em Escrita Criativa pela Universidad Nacional de Tres de Febrero, editor da Revista Sexus e vencedor do concurso Brasil em Prosa 2015. Finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2016 e do Prêmio Kindle de Literatura.

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