O Sol patenteado

Foto e Grafia: Roberto Menezes

Os homens da Saelpa terminaram a instalação beirando as seis da noite. O sol já indo por trás do lajedo. Quase que não dava hoje pra puxar o fio pra casa. Mas a correria deu certo. Já já a luz da Philips vai brilhar aqui pela primeira vez.

Casa isolada, catorze quilômetros de outro pé de gente. Foram vinte dias pra que os postes fossem plantados na beira da estrada de terra, e o fio, feito um varal de roupa, pendurado de um a um. Finalmente não haverá uma única casa desse lado de baixo do Alto Sertão sem energia elétrica. “Luz para todos”, disse o prefeito quando veio aqui na hora do almoço. Nem na campanha, ele tinha vindo. É importante tirar umas fotos desse momento histórico. Na reeleição, poderá dizer que nunca antes na história dessa cidade…

A família ficou a tarde toda do outro lado da rua de terra, sentada na sombra de um tronco velho. Os homens da Saelpa andavam com cabos de lá pra cá. “Não tem perigo”, um deles disse. Mas o pai não quis arriscar. A família toda, menos a velha bisa. A bisa ficou lá dentro, sentada na sua cadeira de rodas. “Vem pra cá, vó”, dizia o pai “Não, tou bem aqui”, a bisa fazia birra. Nasceu e vai morrer nessa casa. Viu as paredes mudarem de taipa pra tijolo. Viu também o piso de barro seco, depois de muitas mudanças de pele, mudar pra essa cerâmica brilhosa que só faz a cadeira de rodas escorregar. Eletricidade, nunca viu, só soube falar. Está viva e lúcida, desde antes dessas novidades todas.

Os homens da Saelpa tiram os capacetes. Bebem três ou quatro copos d´água. Chamam a família. Lá vem pai, mãe, filho, filha, genro, neto, neto e neta. “Hoje só deu pra puxar um fio, a gente instalou uma luz na cozinha”. A lâmpada pendurada no fio balança a dois metros e vinte de altura. Os seres de metro e meio são vultos no lusco-fusco. Um dos homens diz pro outro, “vai lá, liga”. Ninguém quer saber pra onde o cara foi. Só se importam com a lâmpada. Todos ali ao redor da mesa já viram muitas outras acesas, mas essa tem um significado especial.

Os segundos passam. Dez ou doze segundos, a espera se encerra. A lâmpada entrega o seu brilho. 60W. Calor amarelo. Dá pra ver o fio de tungstênio em brasa. O homem da Saelpa segura a prancheta e a caneta pra que o pai assine, mas o pai e todo o resto da família estão encantados com a luz invadindo as frestas, do chão à parede, fazendo novas sombras em ângulos de luz nunca vistos.

“Aqui, senhor”. O pai não sabe assinar, a filha assina. Quem diria que ela, que já viajou o Brasil inteiro, também ficaria fascinada com a chegada da energia. Os homens vão, amanhã vêm terminar a instalação. A família agora se solta, comemora. Geladeira. Televisão. Antena parabólica. Som pra tremer telha. Ventilador. Nessa ordem. É o que vão comprar quando sair o dinheiro do décimo da aposentadoria da bisa.

E a bisa? “Vem cá, bisa”. A bisa está lá, sentada na sua cadeira, no escuro, olhando pro resto de dia que o céu lá fora ainda dá.

Um neto vai, traz ela à força. A bisa não dá resistência, mas forja a teimosia de sempre. Na entrada da porta mesmo, ela observa, resmunga algo que ninguém entende. Olha de novo. Fita o olhar. Não para de olhar. “E aí, bisa?”. A bisa empurra a roda da cadeira. O neto leva a cadeira pra perto da mesa. O olho que a catarata não pegou se intriga com o filete de luz. A bisa levanta mais a cabeça. A família até pensa que ela quer sair da cadeira. Mas não. Só aponta o nariz pra cima, o mais rente que pode levantar em direção à lâmpada. De nariz empinado, a bisa inspira lenta e profundamente. Depois, desiste. Só diz, “Não”, e volta pro quarto com cara de decepção.

É claro que a bisa nunca vai falar pro resto da família o motivo da frustração. Ela até que gostou dessa nova novidade. Esse sol patenteado até que é bonito, até joga uma luz boa, mas não tem o cheiro de querosene queimado do candeeiro aposentado.

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Foto por Roberto Menezes

Foto por Roberto Menezes

 

Roberto Menezes é paraibano. Nasceu em 1978. É professor da Universidade Federal da Paraíba. Faz parte do Clube do Conto da Paraíba. Tem quatro livros publicados Pirilampos Cegos (romance), O Gosto Amargo de Qualquer Coisa (romance), Despoemas (contos) e Palavras que devoram lágrimas (romance) e Julho é um bom mês pra morrer (romance). Foi vencedor do Prêmio José Lins do Rego (2011). É um dos criadores da FLIPOBRE.

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