Homem lê jornal em ônibus à noite para saber das notícias

Foto e Grafia: Nuno Manna |

Não era tão tarde, mas quase todos no ônibus já tinham se entregado ao silêncio e à escuridão da viagem noturna. A única luz ali dentro vinha da lâmpada de um passageiro que permanecia na sombra, atrás das páginas iluminadas de um jornal. Caí em um sono leve e acordei algumas vezes com essa imagem ainda à minha frente.

Por aquelas páginas que flutuavam nas trevas não havia manchetes. Um emaranhado movente de traços de vozes inumanas murmuravam confusamente sobre coisas que não acontecem, que poderiam ter acontecido ou que provavelmente deixarão de acontecer. Suas narrativas teciam-se por entre os o-quês, os quens, os ondes, os comos e os por-ques que insistiam em se esboçar.

Tampouco havia datas naquele jornal, ou quaisquer marcações cronológicas que pudessem dispor o tempo. Não se podia dizer de que dia eram aquelas notícias, ou garantir a atualidade do seu leitor. Com as cortinas completamente fechadas, incapaz de ver lá fora as placas na estrada rumo a Belo Horizonte, já mal podia dizer se continuávamos em movimento. Se ele nos levaria adiante, era impossível determinar.

À medida que as páginas eram passadas Sertão afora – Sertão adentro –, restos dos murmúrios se desprendiam do jornal e se espalhavam pelo corredor do ônibus. Aproximando-se dos ouvidos de todos os passageiros adormecidos, sussurravam pesadelos sobre a história e sobre a verdade.

Em algum momento, num leve estalo, a noite se instalou opaca e absoluta. A luz que iluminava o jornal fora apagada, e suas páginas foram engolidas pelo breu. Até o fim da viagem, o único murmúrio que se escutou foi o resmungo de um bebê intranquilo.

De manhã, arrastando apressado minha mala até a saída da rodoviária, não pude deixar de me deter rapidamente pelas páginas na banca de jornais. Havia algo estranhamente familiar naquelas manchetes, seus ocorridos, seus personagens e suas aspas. Mas os segredos que elas me revelariam só vislumbrei ao desviar o olhar, no meio instante antes de me voltar ao mundo da legalidade cotidiana.

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Foto por Nuno Manna

Foto por Nuno Manna

 

Nuno Manna é jornalista e pesquisador, doutor em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), autor dos livros A tessitura do fantástico (Intermeios, 2014) e Jornalismo e o espírito intempestivo, colaborador da revista piauí com reportagens e crônicas. Mantém o site Odisseia no Espaço.

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