Conto

Foto : Ana Drawin |  Grafia: Bruna Kalil Othero |

Com os pés no século XX e a cabeça no XXI, Bruna K nasceu na primavera de 1996, num vinte de outubro, em Belo Horizonte. É estudante de Letras e professora de literatura. Depois de muito escrever no vácuo, resolveu levar sua lira dos vinte anos a público. Estas narrativas, tão jovens e já tão tagarelas, brotaram de suas mãos durante o verão de 2015. O conto “Conto” foi vencedor do Prêmio de Contos Contados de 2016.

ficou um lixo. eu sou péssima em fazer essas merdas

já disse. por que os escritores não contratam alguém pra contar deles, hem? muito melhor do que ficar contando de si mesmo na terceira pessoa E AINDA POR CIMA fingir que não somos nós que estamos contando de nós mesmos fingindo que fingimos pessoas fingindo ser Pessoa somos blasés demais pra isso afinal quem tagarela sobre si mesmo é só mais um narcisista querendo chamar atenção e se for mulher então piora porque afinal ELA DEVE SER UMA VADIA QUALQUER ATTENTION WHORE QUE QUER DAR PRA TODO MUNDO DA VIZINHANÇA. que ridículo. isso é ridículo. esse cu desse conto nem vai passar. tá muito mal feito

eu nem me chamo bruna. só escolhi esse nome porque rima com lacuna e eu sou um todo lacunoso se o teu silêncio se fizer o meu, porisso falo falo, para te exorcizar, porisso trabalho com as palavras, também para me exorcizar a mim, quebram-se os duros dos abismos, um nascível irrompe nessa molhadura de fonemas, sílabas, um nascível de luz, ausente de angústia PORISSO TE CONTO, TE CONTO

mas isso é hilda hilst não eu. eu sou

não

nananinanão

eu não sou bruna esta desconhecida nome que escolhi pois significa escuridão, coisas escuras, escuríssimas, sem luz alguma sem saída ah então é como um beco sem saída? é sim meu amor uma rua que não tem fim pois se você chegar ao fim é mandado de novo pro começo e assim vai para sempresempresempre enquanto o espetáculo continuar

bruna k bruna k quem é você? ah beleza então agora VOCÊ É A BRUNA K tá achando que é quem minha queridíssima?  ana c? quem você pensa que é pra se autonomear bruna k tá doidinha tá louquinha só pode aiaiai ri-dí-cu-la.

não. quem me nomeou assim foi sérgio p PUTA QUE PARIU PARA DE USAR SÓ AS INICIAIS COMO SE FOSSE ANA C mas e se eu for mas não sou não porque ela é poeta e eu contista? ok. é proibido mas se quiser pode.

enfim voltando foi sérgio p ai que homem que homem lindo que homão lembro dele suado em cima de mim mas eu nem gosto de homens então cala a boca. não gosta por quê? uai não pode ser lésbica nesse país? é proibido mas se quiser pode

eu quero

então não pode

uai mas você acabou de falar

EU SEI O QUE EU DISSE É QUE VOCÊ ADMITIU QUE VOCÊ NÃO É VOCÊ

sim

então como minha senhora me explique COMO eu abro esta exceção para você somente. se eu permitir aqui vai virar bagunça

mas eu achei que já tava uma bagunça

sim ficou um lixo. eu sou péssima em fazer essas merdas

já disse.

My dear,

Essa porra desse conto nunca vai ganhar essa porra desse concurso. Os jurados gostam de coisas lineares, certas. Você é errada pra cacete, Lúcia, querida Lúcia, luz da minha vida, fogo de minhas entranhas. Bruna K não existe e ela não pode te salvar. Volte pra sua cela, sim? Saudade do seu corpinho.

Com amor, um beijo gostoso do

seu pai Sérgio

p.s. não te mando mais nada da Hilda. Não te fez bem.

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Foto por Ana Drawin

Foto por Ana Drawin

 

Além de texto, esta foto tem também um vídeo. Confira o curta-metragem “Obsceno Golpe” abaixo.

Bruna Kalil Othero é libriana de 1995, nascida e criada em Belo Horizonte. Autora de Poétiquase (Letramento, 2015), também estuda Letras na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com ênfase em literatura e teatro brasileiros. Escreve no site da obvious magazine.

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4 comentários Adicione o seu

  1. Adri Aleixo disse:

    Muito bom, Bruna!

    1. Bruna K disse:

      Feliz com a sua apreciação, amada libriana!

  2. Laércio J. Pereira disse:

    Adorei, Bruna!

    1. Bruna K disse:

      Que bom que gostou, querido!

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