Charlie

Foto e Grafia: Tadeu Sarmento |

Quando se ostenta vinte anos de idade, o melhor lugar para se estar é em uma banda de rock. É o mesmo que integrar a trupe dos Garotos Perdidos liderados por Peter Pan. Reza a lenda que garotos perdidos são aqueles que caíram de cabeça do berço ou do carrinho de bebê e se perderam de suas mães. Resgatados por Peter Pan, não precisam obedecer a ninguém e podem deixar de crescer para sempre. E para sempre é muito tempo. No meu caso, para sempre durou oito anos. E tínhamos nossa Wendy (uma cantora poderosíssima) e morávamos em Manaus e achávamos que íamos mudar o mundo. Éramos socialistas (pelo menos eu era).

Em 2000, tocamos para uma plateia de índios na Praça do Congresso durante as manifestações contra a comemoração dos 500 anos do Brasil. Fizemos discurso político. Não queríamos mais 500 anos de Brasil. Queríamos um novo país, mas só arrumamos brigas e bebemos todo o estoque disponível. Sentíamos que não havia nada que não pudéssemos fazer. Também não morríamos nunca. Uma vez, cai de um palco de oito metros de altura e voltei a tempo de cantar o refrão depois do solo de guitarra. Também cai do palco no bar dos Hells Angels.

Sempre tive problemas com a Lei da Gravidade, principalmente quando bebia. E não éramos só uma banda, mas uma família. Por oito anos, nos vimos praticamente todos os dias. Não havia nada que pudesse nos separar, salvo o tempo. E o tempo passou. Começamos a envelhecer quando deixamos de acreditar no futuro. Deixamos de ser garotos perdidos e nos tornamos funcionários, máquinas de pagar contas e fantasmas nostálgicos.

No meu caso, mais de uma década de um cretino, corrupto e decepcionante governo de esquerda, minou de vez qualquer esperança de voltar a acreditar em algo. E acreditar em algo é rejuvenescer. Li em algum lugar que, na história original, os garotos perdidos não cresciam porque se suicidavam. Tampouco acredito em suicidas – esses oportunistas do tempo.

Hoje, olho para Ana Júlia, essa garota de dezesseis anos que calou os deputados no Paraná (e que as redes sociais querem transformar em uma nova Joana D’arc instantânea) e faço votos de que ela nunca envelheça. Não como eu envelheci, pelo menos. A pior coisa do mundo é envelhecer em um país que nunca mereceu os melhores anos da juventude de ninguém.

.

Foto por Tadeu Sarmento

Foto por Tadeu Sarmento

 

Tadeu Sarmento é autor de Breves Fraturas Portáteis (Fina Flor Editora, 2005) e Paisagens com ideias fixas (Bartlebee, 2012). Vencedor do Prêmio Pernambuco de Literatura com Associação Robert Walser para sósias anônimos (2015) e do 13º Prêmio Barco a Vapor com O Cometa é um Sol Que Não Deu Certo.

Deixe sua avaliação:
- Avaliações: 8 - Média: 4.8

6 comentários Adicione o seu

  1. Adri Aleixo disse:

    Excelente, Tadeu!

  2. Renata Paula disse:

    Cynara Lima: a “mulher do Léo”, talentosíssima por sinal 😉

  3. Tadeu S. disse:

    Grande Cynara. O problema é que a foto foi enviada já com essas legendas por uma fã da da banda na época. Ela não lembrava o nome da vocalista nem do baterista, Sergey Vargas (que está lá trás, sem nome também).

  4. Denilson Novo disse:

    porrada seca na mente do caboco! Abraços, Tadeu.

  5. Laércio J. Pereira disse:

    Eu convivo com jovens que perderam a esperança antes de sonharem, infelizmente. Ótimo texto, como sempre!

  6. Lessandro Rodrigues de Alencar disse:

    Obrigado pelas lembranças a um fantasma nostálgico pagador de contas. Fui e sempre serei fã dessa banda e desses queridos amigos e músicos. Valeu, Tadeu.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*