Verdades

Foto: Felipe Assunção | Grafia: T. K. Pereira |

Como pode fazer isso comigo, Maria? Um fedelho! Poetinha de merda. De que serve a poesia hoje em dia? Refúgio de covardes, de iludidos, isso é o que é. A verdade, Maria, a verdade está aqui, ó, à nossa volta, acontecendo o tempo todo, até mesmo agora. Mas você não quer saber, nunca quis: não passa de uma estúpida alienada, uma engrenagem insignificante. Vê se entende de uma vez – e você, moleque, aprende: a sociedade está aleijada, doente, em coma, coma induzido! Os sintomas estão claros, mas a maioria não pode ou não faz questão de ver; então alguém precisa esfregar a merda na cara delas. Poesia é lorota! Suas mentiras vão acordar o mundo, ô merdinha? Minhas verdades podem, elas fazem isso todos os dias.

É, Maria, o jornalismo salva sim! E não me venha com esse papinho de esquerdista: não sou um hipócrita de redação, que o diabo carregue todos! Faço o que é preciso, o que acredito, nunca exigi nada por isso. Mas não vou recusar a ajuda de quem está cansado das farsas, de passarem por idiotas; meus textos acordaram essas pessoas e eu tenho uma dívida com elas. Pode zurrar o quanto quiser que isso não muda os fatos: meu blog é relevante, Maria, minha voz tá se espalhando na Internet; as pessoas estão escutando, aos poucos, mas estão. E os processos, vieram a troco de nada? Não, não, foi porque eu penso e faço outros pensarem. Mas você não se dá ao trabalho e aposto que seu poeta aí também não.

Esse merda nem deve entender o porquê de toda essa convulsão – aposto que ele sequer se lembra de em quem votou na última eleição; por que não confere aí no Facebook, fedelho? Ah, Maria, não me venha com essa de atenção: dei cabo da bebida, do fumo, dos trabalhos na madrugada! O que mais quer de mim? Não ouviu o que acabei de dizer? Alguma vez você escutou? Ah, caralho!, quer saber?, enfie seus versos de amor no cu! Típico de você vir fazer isso aqui, justo no meu santuário. Vagabundo?! Foda-se! Você é como as outras. Vá-vá, diaba alienada!, saia daqui. Fique com suas ilusões e me deixe com minhas verdades.

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Foto por Felipe Assunção

Foto de perfil de T. K. Pereira
T. K. Pereira é escritor de coração e servidor público por necessidade. Sob o manto do Escriba Encapuzado, idealizou o projeto “7 coisas que aprendi”, foi finalista do concurso literário Brasil em Prosa 2015, e publicou 4 contos em “Onisciente Contemporâneo” (Bestiário, 2016).
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