Milagre

Foto: Felipe Assunção | Grafia: T. K. Pereira |

Há tempos não chovia na cidade. Nas manchetes: temperaturas recordes, nova crise hídrica, calamidade pública. Era a maior seca da história. Sobre a causa, muitas suposições, nenhuma certeza. Não demorou a bradarem “aquecimento global”, “guerra biológica”, “fim dos tempos!” E as transformações: verde-marrom, sombras-oásis, ruas-deserto, água-petróleo.

Sabe-se lá de onde, veio o velho com seu guarda-chuva. Ele ficava ali pela pracinha no coração da cidade: sapatos lustrados, calça jeans, camisa branquíssima até os cotovelos, boné; nem uma gota de suor, nunca, e o guarda-chuva a tiracolo, sempre. Virou notícia, claro: por que sentado ali no inferno, o dia todo, todos os dias? Se o guarda-chuva não era contra o sol – o velho nunca o abria –, então pra quê? Ninguém entendia e o velho não explicava porque não tinha nada a dizer.

Quem o via ao passar correndo por ali estranhava: sempre os alongamentos, sempre o mesmo banco, a cabeça inclinada, olhos voltados para o céu; não comia, não bebia, não suava – alguns juravam que tampouco respirava. Semanas depois, o velho e seu guarda-chuva eram paisagem, invisíveis aos olhos entrincheirados da cidade… até aquele último dia.

Até hoje se fala de quando o velho mudou sua rotina, de como ele, antes de atravessar a mesma faixa e sentar-se no mesmo banco como fazia há meses, de como o velho abriu seu fiel guarda-chuva e caminhou de cabeça erguida, uma súbita ventania agitando suas roupas. Naquele dia, cabeça erguida e olhos para o céu limpo de nuvens, ele era outro, majestoso, triunfante; naquele dia, o velho abriu o fiel guarda-chuva.

E voou.

Detrás dos santuários de concreto, olhares o viram ir mais alto, e mais alto, e mais alto, até não o virem mais. No dia seguinte, a cidade foi arrasada pelo pior temporal da história.

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Foto por Felipe Assunção

T. K. Pereira é escritor de coração e servidor público por necessidade. Sob o manto do Escriba Encapuzado, idealizou o projeto “7 coisas que aprendi”, foi finalista do concurso literário Brasil em Prosa 2015, e publicou 4 contos em “Onisciente Contemporâneo” (Bestiário, 2016).

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2 comentários Adicione o seu

  1. Laércio J. Pereira disse:

    Linda foto, ótimo texto. Belíssima leitura da imagem desse senhor que passa pela Av. Afonso Pena em pleno sol com o guarda chuvas aberto. Dizem que ele é um grande artista plástico.

    1. T. K. Pereira disse:

      Obrigado, Laércio, mas estou em dúvida se ele não estaria atravessando a Paraná. Hehehe..

      Abração.

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