Vazio

Foto: Felipe Assunção |

Grafia: T. K. Pereira |

O céu era uma tela ansiosa por tintas que nunca viriam; não havia espaço para cores e traços que nada mais traduziam. Era mais um dia vazio, como todos os demais desde a tragédia. E novamente a visita ao local onde arruinaram sua vida. Foi um acidente, sem dúvida: o motorista não estava bêbado, tampouco excedia a velocidade; distraiu-se, só um instante de descuido. Tantos planos destroçados pelo inesperado. Sem futuro, restavam-lhe as lembranças.

Desde o berço, cercado das atenções dos pais, médicos, professores. Com o tempo, aprendeu a cuidar de si e a vida adulta trouxe a independência tão desejada. Era jovem, vinte e poucos, tão saudável quanto qualquer outro, pouco mais irascível, talvez, tão farto que estava da empatia alheia. Quem diria que um dia alguém tornaria o amparo tão confortável? Ele desprezava a piedade, mas não era isso o que lhe era oferecido: era amor; puro, sincero, desapegado. Que mais poderia fazer senão aceitá-lo?

Anos de entrega, uma nova vida prestes a iniciar, tudo perdido porque ele foi inepto quando era mais necessário. Um celular esquecido no carro. Uma travessia de segundos, uma perda pra vida toda. Como podia imaginar? Uma rua tão tranquila… Não pensava em suicídio – depois de tanta luta para se encontrar no mundo, não achava certo –, mas aceitaria a morte fortuita de bom grado. Nunca acontecia. Sentia que viveria ainda mil anos; que fosse, suportaria, seguiria oco pela vida até que esta se enchesse dele.

Da cadeira de rodas sob a árvore, ele sentiu o mundo mais e mais vazio com o passar das horas. Como em todo aniversário, reviveu o acidente. Então, enfim pegou o terço nas mãos e baixou a cabeça. Viu manchas nas pedras; não podia ser sangue, não depois de tanto tempo. Fechou os olhos e ouviu o farfalhar das folhas na copa da árvore onde sua esposa deu o último suspiro. Rezou pela morte dela. E pela sua.

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Foto por Felipe Assunção

T. K. Pereira é escritor de coração e servidor público por necessidade. Sob o manto do Escriba Encapuzado, idealizou o projeto 7 coisas que aprendi, foi finalista do concurso literário Brasil em Prosa 2015, e publicou contos em Onisciente Contemporâneo (Bestiário, 2016) e Translações Singulares (Bestiário, 2017).

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