Fechando os olhos

Foto: Horacius de Jesus |

Grafia: Cristiano Rato  |

Pensou “que tal fugir desse lugar de desgraças”. Andou até a porta da sala, e não havia porta, nem vão, olhou para os lados e não tinha janela também, se sentiu em um pesadelo de criança. Olhou para o chão e uma poça gelava seus pés descalços. Mijo. Sangue. Não sabia. E era tudo que lhe formava os pensamentos: o não saber.

Sua voz sumiu, assim como tudo que havia aprendido durante os mais de cinquenta anos pregados na pele com o cheiro de esgotos, sucatas e restos de construções. Três coisas que fizera a vida inteira, limpar merda, queimar fios e amassar latas de cervejas. Na construção civil fora iniciado ainda jovem, com o pai e os irmãos.

Não era belo, na verdade a vida lhe supriu esse termo, beleza ou feiura, era algo geral, único e contraditório. Apegou-se cedo ao trabalho, era um empreendedor nato, logo sua mãe, já cansada de tanto empreendimento, decidiu lhe abandonar ao relento e incentivar tanta criatividade, dando-lhe algo que não era liberdade, mas também não se assemelhava a prisão. Como disse, ele era contraditório.

Reparou de repente o ar sufocante que havia ali. Levou a mão à barriga e sentiu um buraco formigando e gorfando como um bebê agitado durante horas no colo de algum tio desvairado e alegre. Com a mão estendida, os braços doeram, e a própria mão se assemelhou à imagem de cristo na igreja durante os duros anos de catequese, quando matava os encontros para chutar fariseus.

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Foto por Horacius de Jesus

 

Cristiano Silva Rato nasceu em Japonvar, norte de Minas Gerais. Atualmente vive no Morro do Papagaio, em Belo Horizonte. Tem publicado o livro Sentido Suspenso (Editora Multifoco, 2012) e textos espalhados pela web (Mallamargens, Balaio de Notícias, e outros) e fanzines. É co-criador do programa Literatura no Boteco.

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